Provavelmente você já se olhou no espelho e percebeu alguma
coisa que queria mudar em si mesmo. Aumentar um pouquinho aqui, diminuir umas
medidas ali, afinar o nariz, eliminar uma ruga... Enfim, quem nunca desejou ter
as medidas certas, que atire a primeira pedra. Vaidade é normal. Mas quando ela
passa a ser primordial, torna-se uma doença, um veneno para a auto-estima,
mutilando-a e asfixiando o prazer de viver - de muitas pessoas- que sem
perceber, ficam obcecadas em alcançar o padrão de beleza, o perfeito estético.
Cirurgias plásticas, tratamentos diversos, exercícios
físicos em excesso e uma infinidade de cosméticos que prometem ajudar na ‘busca
da perfeição’, escravizam milhões jovens
e adolescentes todos os dias e revelam o lado feio e perverso nunca imaginado
pelos discípulos da beleza. O resultado dessa luta infinita são pessoas
frustradas com o próprio corpo, infelizes em relacionamentos pessoais, reféns
de padrões de beleza inexistentes.
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP),
das 616.287 mil intervenções realizadas no ano de 2004, 365.698 mil (59%) foram
estéticas e 250.589 (41%) reparadoras. A grande procura ainda é a lipoaspiração
que lidera o ranking com 54% da preferência principalmente entre as mulheres
que, no mesmo ano somaram 425.288 mil (69%) - contra 190.999 mil homens (31%) -
interessados em cirurgia plástica
Por ano, o Brasil chega a colocar no mercado cerca de sete
mil novos produtos estéticos e muitos deles prometem fazer com que o corpo não
‘sofra’ as marcas do tempo. Os “doentes pela vaidade” ajudaram nosso país a se
posicionar em quarto lugar no ranking mundial de consumos de produtos de
perfumaria, cosméticos e higiene pessoal, com índice de vendas de 17,6%, 15,8%
e 13,4%, respectivamente e um faturamento de R$ 15,4 bilhões para o setor.
Um dos fatores que contribuiu para esse ‘estouro’ de vendas
foi a mudança de hábitos das pessoas, que aconteceu principalmente com a ajuda
da medicina. Na opinião do dermatologista João Carlos Pereira, se há 20 anos as
pessoas se preocupavam em chegar aos 70 com mais saúde e deixavam de procurar
tratamentos estéticos para cuidar de um problema cardíaco, por exemplo, hoje o
cenário mudou. “Atualmente um indivíduo pode chegar aos 70 anos com saúde. E se
a saúde física está bem, ela então vai cuidar da estética para tentar adiar o
envelhecimento”, explica.
na ânsia de melhorar rapidamente a aparência física e
movidas pelo incessante apelo publicitário da indústria da beleza, as pessoas
acabam indo na contramão do que seria o correto. “Ao invés de comprar um
produto que promete ajudar na estética do corpo ou do rosto, as pessoas teriam
primeiro que procurar um especialista para saber qual o tratamento ou creme
adequado para utilizar, pois cada caso é um caso, existem tratamentos
específicos para cada tipo de pele e que ajudam a obter o resultado desejado se
forem aplicados corretamente. É importante lembrar que nenhum tipo de
tratamento, seja cirúrgico ou cosmético, é milagroso”, alerta o
dermatologista.
A anorexia é bem conhecida e frequenta o noticiário há um
bom tempo pelas vítimas que faz principalmente no mundo da moda, entre as
jovens garotas que sonham em ter o corpo valorizado por esse meio.
Caracteriza-se, basicamente, pela recusa do paciente em alimentar-se, devido a
um temor absurdo de ganhar peso. Já a vigorexia é a busca incessante e contínua
por músculos. Leva à prática exagerada de exercícios, geralmente associada ao
uso de anabolizantes e ao consumo indiscriminado de suplementos alimentares.
A anorexia faz a pessoa emagrecer demais e sempre se achar
gorda, mesmo que esteja com os ossos à mostra. Segundo psiquiatra Jocelyne, a
anorexia atinge de 0,5% a 2% da população jovem feminina, mas no campo da moda
esse número cresce assustadoramente, podendo chegar a 40%. "É mais comum
entre adolescentes, mas pode afetar crianças de oito ou nove anos",
afirma. "Também pode ser notado um grupo de anoréxicas maduras, já com os
filhos criados, que partem em busca da beleza e juventude perdida a partir de
uma crise pessoal, geralmente a depressão."
Primeiro vem a vontade de mudar o visual. Em seguida, uma
rotina com treinos, exercícios de alta intensidade suplementação alimentar.
Meses depois, a imagem do espelho mostra que o corpo não mudou, mesmo quando a
balança e a quantidade de músculos provam justamente o contrário. Parece coisa
boba, mas a vigorexia é distúrbio tão grave quanto a anorexia e é caracterizada
pela distorção da imagem corporal, muito comum em praticantes de atividades
físicas, como a musculação. A sobrecarga de exercício gera uma síndrome
orgânica-sistêmica que leva ao aumento da pressão arterial e da frequência
cardíaca, a arritmias e a distúrbios alimentares, que, por sua vez, podem
desencadear anemia e deficiências vitamínicas. Tudo isso sem falar nas chances
de lesões do aparelho locomotor. O quadro piora se há o uso de anabolizantes. A
substância sozinha pode levar a uma série de riscos e efeitos colaterais
metabólicos: propensão ao câncer, disfunções sexuais, sobrecarga cardiovascular
e hepática, piora do perfil de gordura (com aumento do colesterol ruim),
retenção de líquidos e aumento da pressão arterial
Curiosidades
O culto
ao corpo ao alcance de todos
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A
preocupação com o físico e com a beleza perde-se nos tempos, mas as academias
de ginástica como conhecemos hoje são um fenômeno que começou a se
popularizar na década de 80. Antes disso, os homens malhavam apenas nos
clubes de halterofilismo, com a finalidade de criar músculos. As mulheres
faziam aulas de balé. Quando a atriz americana Jane Fonda lançou seus famosos
vídeos de ginástica, em 1982, mulheres que malhavam com frequência ainda eram
minoria. No mesmo período, a cirurgia plástica deixou de ser algo restrito a
estrelas de cinema e se tornou um recurso ao alcance da classe média. A
modalidade preferida é a lipoaspiração, responsável por 40% das operações no
Brasil. Nos Estados Unidos, aparecem em primeiro lugar as cirurgias de seio,
que totalizam 23% das intervenções.
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A
cirurgia plástica ficou comum
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• Em 1970 eram realizadas entre 15 000 e 16 000 cirurgias plásticas anuais no Brasil. Em 2002, esse número pulou para 370 000
• O
país que mais faz cirurgias plásticas são os Estados Unidos, com 1 620 000
por ano. Em 1970, esse número não passava de 50 000
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Academias
superpovoadas
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